Trabajos Libres de Sexto Congreso
Reich y Espinoza en la invención del Esquizoanálisis
Daniel C. Avila
Este trabalho propõe um desdobramento da análise da relação entre Reich e Bergson, assim como foi exposta por Albertini (ALBERTINI, 1992 e ALBERTINI, 1994), em direção à relação entre Reich e Espinosa. Segundo o autor, esta apresenta-se como tarefa de “identificar características definidoras da perspectiva” do filósofo, “compondo certas ‘chaves’ fundamentais da abordagem reichiana” (ALBERTINI, 1994, p. 92). Trata-se, portanto, de um trabalho sobre a composição de conceitos que, não sendo compartilhados pelos autores, definem elementos que são característicos da perspectiva de Espinosa ao mesmo tempo em que fundamentam a abordagem de Reich.
Um primeiro ponto onde é possível estabelecer uma aproximação entre Reich e Espinosa é o conceito de Deus. Imerso no discurso ateísta Das correntes socialistas e comunistas, Reich adota, segundo Dadoun, uma posição avessa às “secularmente estériles argumentaciones acerca de si ‘Dios existe’ o ‘Dios no existe’” ou à entrega a um “vano onanismo de ‘lo que yo creo’” (DADOUN, 1978, p. 191), preferindo uma observação, em seu entender, mais científica. Evoca, então, o fato antropológico de que a noção de Deus é, sobretudo, universal na medida em que todas as culturas assumem, sob uma forma ou outra, a existência de uma energia criadora e onipresente, percebida como força vital. Analogamente, Espinosa introduz um “Deus dos filósofos” (SCRUTON, 2000, p. 13) na definição 6 do livro I da “Ética”, De Deus: “o ente absolutamente infinito, isto é, uma substância que consta de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita” (ESPINOSA, 1973, p. 84), sendo o atributo “aquilo que o entendimento percebe da substância como constituindo a sua essência” (idem, p. 61). Desta forma, o atributo exprime a essência que indica as propriedades dos modos da substância espinosana, entendida como sendo uma só e idêntica a Deus e capaz de produzir a realidade assim como é percebida.
Pode-se notar aqui uma proximidade entre as teorias de Reich e Espinosa na medida em que ambos concebem o mundo como produção a partir de uma potência criadora, chamada de Deus. Pode-se notar, também, um distanciamento entre as duas já que a força do sistema filosófico de Espinosa é sua tese de uma substância una e infinita que resulta em que “não é Deus que existe no mundo, mas o mundo que existe em Deus” (DELBOS, 2002, p. 80), de tal modo que tanto pensamento quanto extensão são dois atributos seus que se manifestam no homem como um modo finito, antes de ser Deus algo que é concebido pelo pensamento. De fato, se Deus consta de infinitos atributos, isto é o mesmo que dizer que “Deus é um ser pensante e Deus é um ser extenso” (DELBOS, 2002, p. 230) e aqui Espinosa apresenta uma concepção original e radical de Deus que ultrapassa a idéia de Reich ou, ao menos, revela outras preocupações.
Uma outra aproximação entre Reich e Espinosa se dá na ênfase dada por ambos ao corpo e suas relações com o campo da Teoria dos Afetos. De fato, “Espinosa apresentou um novo modelo à filosofia, o corpo. Corpo submetido às paixões, corpo feito de relações, de mistura” (TEIXEIRA, 2006, p. 151). Da mesma maneira, “Reich acreditava que a condição do corpo seria fundamental nas atitudes, na potência do sujeito, na sua compreensão da realidade” (idem). Mas esta comparação corresponde também a um distanciamento se considerarmos suas respectivas relações com o conceito de afeto. Segundo Laplanche e Pontalis, Freud empregou termo afeto como “qualquer estado afectivo, penoso ou agradável, vago ou qualificado” além de ser “expressão qualitativa da quantidade de energia pulsional e das suas variações” (LAPLANCHE & PONTALIS, 1983, p. 34). Estas noções são também encontradas em Reich, ainda que tenha desenvolvido mais este segundo aspecto, como elemento de “uma teoria quantitativa dos investimentos” (idem, p. 35)
Para Reich, a clínica tem o “estabelecimento da potência orgástica como objetivo terapêutico” (REICH, 1972, p. 276), pois “Através do trabalho analítico, liberamos energia psíquica, que pressiona em direção à descarga” (idem, p, 271). Esta definição de afeto, no entanto, não coincide com aquela adotada por Espinosa em sua Ética como designando “o que acontece ao modo, as modificações do modo, os efeitos dos outros modos sobre este.” (DELEUZE, 2002, p. 55). A idéia de afeto para Espinosa, portanto, remete mais a um contato entre dois modos da substância, onde um afeta o outro, alterando suas relações constitutivas. Encontraremos, em Reich, um conceito mais próximo a esta defnição se atentarmos para a definição reichiana de contato.
Esta noção surge, na teoria de Reich, como implicação do problema clínico da couraça pois “mesmo depois de se desfazerem por completo os modos formais de comportamento, mesmo depois de se conseguirem profundas irrupções de energia vegetativa, permanecia sempre um resíduo indefinível, aparentemente inatingível” (idem, p. 290). Assim, “a falta de contato psíquico constitui o resíduo impalpável da couraça” (idem), isto é, “uma muralha no organismo psíquico, resultante da contradição entre duas correntes libidinais opostas” (idem, p. 291). A couraça, portanto, é a forma de evitar o contato, evitar o afeto dos outros corpos.
Ainda que a idéia de encontro, apareça na Ética uma única vez, ela refere-se imediatamente ao conceito de afeto. Espinosa realiza uma análise qualitativa destes encontros de acordo com o modelo: “Quando encontra outro modo, pode ocorrer que este outro modo seja ‘bom’ para ele, isso é, se componha com ele, ou, ao inverso, seja ‘mau’ para ele e o decomponha” (DELEUZE, 2002, p. 55).
Esta preocupação com a qualidade dos encontros também é tomada por Reich: “toda vez que moções pulsionais naturais, adequadas, são impedidas de relação direta com os objetos do mundo, o resultado é a angústia, como expressão de um arrastar-se para dentro de si mesmo, e o desenvolvimento de um muro de negação ao contato” (REICH, 1972, p. 294), de tal forma que “emerge do embotamento psíquico um quadro caracterizado por resignação, apatia, sentimentos de isolamento e grave enfraquecimento da atividade e dos interesses objetivos” (idem, p. 294). Este quadro de impotência decorrente da falta de contato está próximo ao que Espinosa define como o corpo que, em um mau encontro, tem sua potência de agir e existir diminuídos.
Aqui os pensamentos de Espinosa e de Reich convergem para um fim concreto e prático: a liberdade. Isso porque a qualidade dos afetos define o caráter genital para Reich, isto é, o homem que conquista sua liberdade, assim como orienta a definição de homem livre para Espinosa: “não o estar livre da necessidade, mas sim a consciência da necessidade” (SCRUTON, 2000, p. 18). Se o necessário é estabelecer bons encontros, a liberdade paradoxalmente se define, não pela possibilidade de escolha, mas pela escolha do necessário. Para sua realização, torna-se imprescindível a análise qualitativa dos encontros.
O conceito de liberdade conduz ao trabalho de Gilles Deleuze e Félix Guattari e sua aproximação entre os dois autores: “o problema fundamental da filosofia política é ainda aquele que Spinoza soube formular (e que Reich redescobriu) : ‘Porque é que os homens combatem pela sua servidão como se tratasse da sua salvação?’ Como é possível que se chegue a gritar: mais impostos! menos pão!” (DELEUZE; GUATTARI, 1966, p. 33). A explicação de Reich é tomada, por Deleuze e Guattari em termos do desejo: “não, as massas não foram enganadas, elas desejaram o fascismo num certo momento, em determinadas circunstâncias” (DELEUZE; GUATTARI, 1966, p. 33).
Mas Deleuze e Guattari opram uma crítica à reflexão de Reich sobre a ascensão do fascismo: “Reich não chega a dar uma resposta capaz, porque restaura o que pretendia demolir, ao distinguir a racionalidade tal como existe, ou deveria existir no processo de produção social, do irracional do desejo, sendo apenas este que está sujeito à psicanálise.” (DELEUZE; GUATTARI, 1966, p. 34). Esta crítica é melhor explicitada no prefácio de Deleuze ao livro “Psicanálise e Transversalidade” de Guattari: “Vê-se a diferença em relação a Reich: não há uma economia libidinal que viria por outros meios prolongar subjetivamente a economia política, não há uma repressão sexual que viria interiorizar a exploração econômica e a sujeição política” (DELEUZE, 2006, p. 252).
Para estes autores, Reich “renuncia, pois, a descobrir a medida comum ou a coexistência do campo social e do desejo.” (DELEUZE; GUATTARI, 1966, p. 34) porque “Na verdade, a produção social é simplesmente a produção desejante em determinadas condições (...) o campo social é imediatamente percorrido pelo desejo, que é seu produto historicamente determinado” (idem, p. 33). Reivindicar uma apropriação espinosana da teoria de Reich ao dizer que entre o campo social e o campo subjetivo existe uma medida comum, intermediada pelo desejo, é afirmar a existência de uma substância única que se manifesta em suas diferentes produções. Isto é explicado pelo fato de que “Deleuze (...) se apoderou da noção espinosana de imanência absoluta que define o próprio deus, para significar a mente humana” (SILVA, 2005, p. 35) e, mais ainda, que “o campo transcendental (mente) é o inconsciente” (idem, p. 44). É possível que tal crítica fundamente-se no fato de “Reich filiar-se à Psicanálise não pela via do desejo – e dos seus companheiros inseparáveis: inconsciente e recalque -, mas por meio da teoria das pulsões” (WEINMANN, 2005, p. 74), o que resultaria em uma importância maior ao prazer que ao desejo. De qualquer maneira, compreende-se, enfim, que a crítica que Deleuze e Guattari endereçam a Reich resume-se na compreensão de que “A própria economia é que é economia política e economia desejante” (DELEUZE, 2006, p. 348) entendendo socius e pathos, racional e irracional sob o prisma de uma só unidade de produção, o inconsciente.
Bibliografia

ALBERTINI, P. Reich: História das idéias e formulações para a Educação. São Paulo: Ágora, 1994.
. Contribuição para o conhecimento do pensamento de Reich: desenvolvimento histórico e formulações para a educação. 1992. Tese (Doutorado em Psicologia Escolar) –Instituto de Psicologia/Universidade de São Paulo.
BOADELLA, D. Nos Caminhos de Reich.. São Paulo: Summus, 1985.
DADOUN, R. Cien Flores para Wilhelm Reich. Barcelona: ANAGRAMA, 1978.
DELBOS, V. O Espinosismo: Curso proferido na Sorbonne em 1912-1913. São Paulo: Discurso Editorial, 2002.
DELEUZE, G. A ilha deserta: e outros textos. São Paulo: Iluminuras, 2006.
. Espinoza: Filosofia Prática. São Paulo: Escuta, 2002.
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia. Lisboa: Assírio e Alvim, 1966.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.-B. Vocabulário da Psicanálise. Lisboa: Moraes, 1983.
REICH, W. Análise do Caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1972.
. O Éter, Deus e o Diabo; A superposição cósmica. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
. Psicologia de Massas do Fascismo. Porto: Publicações Escorpião, 1974.
SCRUTON, R. Spinoza. São Paulo: UNESP, 2000.
SILVA, V. L. Espinosa e Deleuze: Apropriação e Redefinição de Conceitos. Cadernos Espinosanos: Estudos sobre o Século XVII, n. XIII, p. 25-61, jul-dez. 2005.
SPINOZA, B. Ética. Os Pensadores, vol. 17. São Paulo: Abril, 1973.
TEIXEIRA, D. Espinoza e Reich: O corpo da alegria. Pensamento Reichiano em Revista, n. 1, p. 149-158, 2006.
WEINMANN, A. O. Desejo e Prazer em Reich, Foucault, Deleuze e Guattari. Revista Reichiana, n. 14, p. 72-88, 2005.

Este trabalho propõe um desdobramento da análise da relação entre Reich e Bergson, assim como foi exposta por Albertini (ALBERTINI, 1992 e ALBERTINI, 1994), em direção à relação entre Reich e Espinosa. Segundo o autor, esta apresenta-se como tarefa de “identificar características definidoras da perspectiva” do filósofo, “compondo certas ‘chaves’ fundamentais da abordagem reichiana” (ALBERTINI, 1994, p. 92). Trata-se, portanto, de um trabalho sobre a composição de conceitos que, não sendo compartilhados pelos autores, definem elementos que são característicos da perspectiva de Espinosa ao mesmo tempo em que fundamentam a abordagem de Reich.
Um primeiro ponto onde é possível estabelecer uma aproximação entre Reich e Espinosa é o conceito de Deus. Imerso no discurso ateísta Das correntes socialistas e comunistas, Reich adota, segundo Dadoun, uma posição avessa às “secularmente estériles argumentaciones acerca de si ‘Dios existe’ o ‘Dios no existe’” ou à entrega a um “vano onanismo de ‘lo que yo creo’” (DADOUN, 1978, p. 191), preferindo uma observação, em seu entender, mais científica. Evoca, então, o fato antropológico de que a noção de Deus é, sobretudo, universal na medida em que todas as culturas assumem, sob uma forma ou outra, a existência de uma energia criadora e onipresente, percebida como força vital. Analogamente, Espinosa introduz um “Deus dos filósofos” (SCRUTON, 2000, p. 13) na definição 6 do livro I da “Ética”, De Deus: “o ente absolutamente infinito, isto é, uma substância que consta de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita” (ESPINOSA, 1973, p. 84), sendo o atributo “aquilo que o entendimento percebe da substância como constituindo a sua essência” (idem, p. 61). Desta forma, o atributo exprime a essência que indica as propriedades dos modos da substância espinosana, entendida como sendo uma só e idêntica a Deus e capaz de produzir a realidade assim como é percebida.
Pode-se notar aqui uma proximidade entre as teorias de Reich e Espinosa na medida em que ambos concebem o mundo como produção a partir de uma potência criadora, chamada de Deus. Pode-se notar, também, um distanciamento entre as duas já que a força do sistema filosófico de Espinosa é sua tese de uma substância una e infinita que resulta em que “não é Deus que existe no mundo, mas o mundo que existe em Deus” (DELBOS, 2002, p. 80), de tal modo que tanto pensamento quanto extensão são dois atributos seus que se manifestam no homem como um modo finito, antes de ser Deus algo que é concebido pelo pensamento. De fato, se Deus consta de infinitos atributos, isto é o mesmo que dizer que “Deus é um ser pensante e Deus é um ser extenso” (DELBOS, 2002, p. 230) e aqui Espinosa apresenta uma concepção original e radical de Deus que ultrapassa a idéia de Reich ou, ao menos, revela outras preocupações.
Uma outra aproximação entre Reich e Espinosa se dá na ênfase dada por ambos ao corpo e suas relações com o campo da Teoria dos Afetos. De fato, “Espinosa apresentou um novo modelo à filosofia, o corpo. Corpo submetido às paixões, corpo feito de relações, de mistura” (TEIXEIRA, 2006, p. 151). Da mesma maneira, “Reich acreditava que a condição do corpo seria fundamental nas atitudes, na potência do sujeito, na sua compreensão da realidade” (idem). Mas esta comparação corresponde também a um distanciamento se considerarmos suas respectivas relações com o conceito de afeto. Segundo Laplanche e Pontalis, Freud empregou termo afeto como “qualquer estado afectivo, penoso ou agradável, vago ou qualificado” além de ser “expressão qualitativa da quantidade de energia pulsional e das suas variações” (LAPLANCHE & PONTALIS, 1983, p. 34). Estas noções são também encontradas em Reich, ainda que tenha desenvolvido mais este segundo aspecto, como elemento de “uma teoria quantitativa dos investimentos” (idem, p. 35)
Para Reich, a clínica tem o “estabelecimento da potência orgástica como objetivo terapêutico” (REICH, 1972, p. 276), pois “Através do trabalho analítico, liberamos energia psíquica, que pressiona em direção à descarga” (idem, p, 271). Esta definição de afeto, no entanto, não coincide com aquela adotada por Espinosa em sua Ética como designando “o que acontece ao modo, as modificações do modo, os efeitos dos outros modos sobre este.” (DELEUZE, 2002, p. 55). A idéia de afeto para Espinosa, portanto, remete mais a um contato entre dois modos da substância, onde um afeta o outro, alterando suas relações constitutivas. Encontraremos, em Reich, um conceito mais próximo a esta defnição se atentarmos para a definição reichiana de contato.
Esta noção surge, na teoria de Reich, como implicação do problema clínico da couraça pois “mesmo depois de se desfazerem por completo os modos formais de comportamento, mesmo depois de se conseguirem profundas irrupções de energia vegetativa, permanecia sempre um resíduo indefinível, aparentemente inatingível” (idem, p. 290). Assim, “a falta de contato psíquico constitui o resíduo impalpável da couraça” (idem), isto é, “uma muralha no organismo psíquico, resultante da contradição entre duas correntes libidinais opostas” (idem, p. 291). A couraça, portanto, é a forma de evitar o contato, evitar o afeto dos outros corpos.
Ainda que a idéia de encontro, apareça na Ética uma única vez, ela refere-se imediatamente ao conceito de afeto. Espinosa realiza uma análise qualitativa destes encontros de acordo com o modelo: “Quando encontra outro modo, pode ocorrer que este outro modo seja ‘bom’ para ele, isso é, se componha com ele, ou, ao inverso, seja ‘mau’ para ele e o decomponha” (DELEUZE, 2002, p. 55).
Esta preocupação com a qualidade dos encontros também é tomada por Reich: “toda vez que moções pulsionais naturais, adequadas, são impedidas de relação direta com os objetos do mundo, o resultado é a angústia, como expressão de um arrastar-se para dentro de si mesmo, e o desenvolvimento de um muro de negação ao contato” (REICH, 1972, p. 294), de tal forma que “emerge do embotamento psíquico um quadro caracterizado por resignação, apatia, sentimentos de isolamento e grave enfraquecimento da atividade e dos interesses objetivos” (idem, p. 294). Este quadro de impotência decorrente da falta de contato está próximo ao que Espinosa define como o corpo que, em um mau encontro, tem sua potência de agir e existir diminuídos.
Aqui os pensamentos de Espinosa e de Reich convergem para um fim concreto e prático: a liberdade. Isso porque a qualidade dos afetos define o caráter genital para Reich, isto é, o homem que conquista sua liberdade, assim como orienta a definição de homem livre para Espinosa: “não o estar livre da necessidade, mas sim a consciência da necessidade” (SCRUTON, 2000, p. 18). Se o necessário é estabelecer bons encontros, a liberdade paradoxalmente se define, não pela possibilidade de escolha, mas pela escolha do necessário. Para sua realização, torna-se imprescindível a análise qualitativa dos encontros.
O conceito de liberdade conduz ao trabalho de Gilles Deleuze e Félix Guattari e sua aproximação entre os dois autores: “o problema fundamental da filosofia política é ainda aquele que Spinoza soube formular (e que Reich redescobriu) : ‘Porque é que os homens combatem pela sua servidão como se tratasse da sua salvação?’ Como é possível que se chegue a gritar: mais impostos! menos pão!” (DELEUZE; GUATTARI, 1966, p. 33). A explicação de Reich é tomada, por Deleuze e Guattari em termos do desejo: “não, as massas não foram enganadas, elas desejaram o fascismo num certo momento, em determinadas circunstâncias” (DELEUZE; GUATTARI, 1966, p. 33).
Mas Deleuze e Guattari opram uma crítica à reflexão de Reich sobre a ascensão do fascismo: “Reich não chega a dar uma resposta capaz, porque restaura o que pretendia demolir, ao distinguir a racionalidade tal como existe, ou deveria existir no processo de produção social, do irracional do desejo, sendo apenas este que está sujeito à psicanálise.” (DELEUZE; GUATTARI, 1966, p. 34). Esta crítica é melhor explicitada no prefácio de Deleuze ao livro “Psicanálise e Transversalidade” de Guattari: “Vê-se a diferença em relação a Reich: não há uma economia libidinal que viria por outros meios prolongar subjetivamente a economia política, não há uma repressão sexual que viria interiorizar a exploração econômica e a sujeição política” (DELEUZE, 2006, p. 252).
Para estes autores, Reich “renuncia, pois, a descobrir a medida comum ou a coexistência do campo social e do desejo.” (DELEUZE; GUATTARI, 1966, p. 34) porque “Na verdade, a produção social é simplesmente a produção desejante em determinadas condições (...) o campo social é imediatamente percorrido pelo desejo, que é seu produto historicamente determinado” (idem, p. 33). Reivindicar uma apropriação espinosana da teoria de Reich ao dizer que entre o campo social e o campo subjetivo existe uma medida comum, intermediada pelo desejo, é afirmar a existência de uma substância única que se manifesta em suas diferentes produções. Isto é explicado pelo fato de que “Deleuze (...) se apoderou da noção espinosana de imanência absoluta que define o próprio deus, para significar a mente humana” (SILVA, 2005, p. 35) e, mais ainda, que “o campo transcendental (mente) é o inconsciente” (idem, p. 44). É possível que tal crítica fundamente-se no fato de “Reich filiar-se à Psicanálise não pela via do desejo – e dos seus companheiros inseparáveis: inconsciente e recalque -, mas por meio da teoria das pulsões” (WEINMANN, 2005, p. 74), o que resultaria em uma importância maior ao prazer que ao desejo. De qualquer maneira, compreende-se, enfim, que a crítica que Deleuze e Guattari endereçam a Reich resume-se na compreensão de que “A própria economia é que é economia política e economia desejante” (DELEUZE, 2006, p. 348) entendendo socius e pathos, racional e irracional sob o prisma de uma só unidade de produção, o inconsciente.
Bibliografia

ALBERTINI, P. Reich: História das idéias e formulações para a Educação. São Paulo: Ágora, 1994.
. Contribuição para o conhecimento do pensamento de Reich: desenvolvimento histórico e formulações para a educação. 1992. Tese (Doutorado em Psicologia Escolar) –Instituto de Psicologia/Universidade de São Paulo.
BOADELLA, D. Nos Caminhos de Reich.. São Paulo: Summus, 1985.
DADOUN, R. Cien Flores para Wilhelm Reich. Barcelona: ANAGRAMA, 1978.
DELBOS, V. O Espinosismo: Curso proferido na Sorbonne em 1912-1913. São Paulo: Discurso Editorial, 2002.
DELEUZE, G. A ilha deserta: e outros textos. São Paulo: Iluminuras, 2006.
. Espinoza: Filosofia Prática. São Paulo: Escuta, 2002.
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia. Lisboa: Assírio e Alvim, 1966.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.-B. Vocabulário da Psicanálise. Lisboa: Moraes, 1983.
REICH, W. Análise do Caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1972.
. O Éter, Deus e o Diabo; A superposição cósmica. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
. Psicologia de Massas do Fascismo. Porto: Publicações Escorpião, 1974.
SCRUTON, R. Spinoza. São Paulo: UNESP, 2000.
SILVA, V. L. Espinosa e Deleuze: Apropriação e Redefinição de Conceitos. Cadernos Espinosanos: Estudos sobre o Século XVII, n. XIII, p. 25-61, jul-dez. 2005.
SPINOZA, B. Ética. Os Pensadores, vol. 17. São Paulo: Abril, 1973.
TEIXEIRA, D. Espinoza e Reich: O corpo da alegria. Pensamento Reichiano em Revista, n. 1, p. 149-158, 2006.
WEINMANN, A. O. Desejo e Prazer em Reich, Foucault, Deleuze e Guattari. Revista Reichiana, n. 14, p. 72-88, 2005.