Titulo:

Sujeitos Passivos?

Uma Perspectiva da Autenticidade dos Catadores de Lixo

Participante: Angélica Ripari

País de origen: Brasil

Introdução:

  A pobreza é um argumento comparativo. Pressupõe a existência de uma população que não é pobre, a qual se reafirma nessa premissa na formulação de uma dicotomia de atitudes dignas ou não de tal adjetivo. A comparação se baseia na dualidade do possuir e do não possuir. Quem possui é protagonista da sociedade: elabora, planeja, cria ciência e tecnologia, domina os meios de produção, manipula quem produz. É também quem cria todos os conceitos, como também o do não possuidor. Quem se diz sujeito da sociedade polariza o “outro” – os que não possuem - como desordeiros, não organizados, sem nenhuma instituição formada por eles próprios além da família, apolitizados (embora muito úteis como massa em época de eleição ou como manobra revolucionária), incapazes de se auto-disciplinarem, estão “à margem” da sociedade. Outras polarizações foram reveladas por Alba Zaluar: “o peso fisiológico em oposição ao ideológico, do tradicional em oposição ao moderno, do atraso em oposição ao avanço, do pessoal particularista em oposição aos ideais mais amplos, gerais e prementes da sociedade nacional”(11, 35).

  Os possuidores acreditam que os sem posses limitam o desenvolvimento tão bem elaborado por eles, são como pestes da sociedade. Evocam ongs, governo, deuses – um ser externo à sociedade primitiva dos sem posse – pois é preciso organizar-lhes, ensinando-os como agir “civilizadamente”. Somente assim se tornarão “cidadãos”. Segundo Michel Foucault, a intenção dessa prática é fixar os indivíduos no sistema: “trata-se de garantir a produção ou os produtores em função de uma determinada norma” (5,114). Configurando, voltando às dicotomias, o protagonista solucionador em oposição ao figurante problemático.

  Pode-se encontrar vários “protagonistas solucionadores”, como na história os jesuítas com a evangelização dos ameríndios, na cotidiana crença da fácil manipulação das camadas pobres pela mídia, por políticos, por qualquer liderança carismática, ou até bem intencionados, como nas organizações que tem por alvo qualquer um que seja considerado excluído.

  Partindo do último exemplo, a pesquisa em questão tem como objeto os catadores de lixo da cidade de Maringá. São esses polarizados pelos possuidores por sua atividade estar vinculada ao lixo, o que pra sociedade em questão, está associado ao mundo recusado, doenças, epidemias, uma ameaça à ordem – ainda que haja um movimento contrário a esses conceitos tratando da conscientização dessa atividade pelo seu papel ecológico. Contudo, a imagem comum é a do catador de lixo como o desempregado que tem essa atividade por falta de alternativas, sendo assim, um “excluído”.   

  Uma das soluções recorrentes é a “inclusão” por meio de cooperativas. Dando continuidade a inicial configuração, a maioria das cooperativas de catadores é de iniciativa de ongs que buscam os catadores “avulsos” para convencer-lhes de que o método (embutindo também a cultura, os modos, o raciocínio) que será ensinado é o certo (em oposição à ignorada cultura, modos, raciocínio dos catadores). Garantindo assim, como foi colocado pelo catador cooperativado Jesus Aparecido Montelo, o “resgate da cidadania” dos catadores (10, passim). Tendo, então, os reais sujeitos da ação – quem efetivamente cata o lixo – como meros sujeitos passivos de sua própria atividade.

  A primeira etapa da técnica de convencimento é fazer o catador acreditar que ele é um excluído da sociedade. Segundo o discurso de quem organiza as cooperativas, dos intelectuais solucionadores em geral, esse processo é necessário, pois o sistema capitalista produz alienados individualistas não permitindo que esses compreendam o contexto geral da sociedade e a função – exclusão, no caso – do catador como individuo nesse contexto. Porém, é esse mesmo sistema capitalista que proporciona (exige) a inserção dos excluídos, por motivos de controle social, como já foi exposto em Focault. Sendo assim, essa atitude alimenta o alvo da crítica, pois, essa organização como inclusão, em vez de propor uma alternativa ao sistema, fomenta uma outra regra do mesmo.

  Considerando os trabalhos que comprovam a, antes duvidosa, organização de sociedades tão extremas, como Malinowski e os trobriandeses, Marcel Mauss e os Maoris, e tantos outros, porque se deve acreditar que os sem posse, os catadores de lixo, que estão “relativamente próximos”, não têm uma organização autêntica? Baseando-se nos conceitos trazido pela antropologia social política, que, como esclarece Georges Balandier "mostra que as sociedades humanas possuem 'todas' o político e estão 'todas' franqueadas às vicissitudes da história."(1, 5), julga-se que a autenticidade dos catadores poderá ser provada. A defesa se fundamenta nas palavras de Marshall Sahlins: “Toma como qualidade distintiva do homem não o fato de que ele deve viver num mundo material, circunstância que compartilha com todos os organismos, mas o fato de fazê-lo de acordo com um esquema de significativo criado por si próprio” (9,8).

  Como alternativa a essa construção do raciocínio do possuidor em oposição ao sem posse se esquadrinhará a identidade do catador.  A busca se consolida no como se estabelece as relações sociais tanto pessoais como profissionais – o senso comunitário, as relações familiares, as instituições que podem ser percebidas, as particularidade dos atos, o como reagir a diversas situações será questionado. A exposição da identidade levantará a indagação do fato de serem indivíduos simplórios, ou serem inventores de um cotidiano – como defende Michel de Certeau (3, passim) que, por um comportamento etnocêntrico, é ignorado pela elite.

 

 

Justificativas:

 

  Há vários termos, como a questão do excluído-incluído, vinculado ao ser ou não cidadão, que estão sendo habitualmente empregados como naturais, sem uma reflexão profunda. A conseqüência é a revelação de uma ausência de lógica quando se observa o raciocínio recorrente, como foi evidenciado nas dicotomias do possuidor se opondo ao não possuidor. À luz da identidade dos catadores de lixo, da autenticidade de sua organização, pode-se esperar uma defesa contra algumas idéias tidas como certas, mas que não são tão lógicas quanto aparentam.

  Em meio a uma realidade dos catadores de lixo como cooperativados, sendo em vez de, como proposto pelas cooperativas, ser autônomo, ter se tornado um sujeito passivo de sua atividade, a pesquisa em questão reafirmará as “classes oprimidas” em contraposição a seus reconfigurados “opressores”. Tais entendimentos do contexto do catador de lixo é o exemplo micro de toda uma postura da social a ser discutida. Pois uma forma de dar fim à polarização da sociedade (citada no início da introdução) é não interpretá-la como polarizada, contra eternamente lutar por uma inclusão.

 

Objetivos:

      O objetivo central dessa pesquisa é compor a identidade do catador de lixo na cidade de Maringá, o processo de invenção de seu cotidiano, formação dos laços afetivos e sua relação com as instituições. Estruturando, assim, uma base para o questionamento se esses indivíduos possuem ou não uma organização não formal, ignorada pela sociedade. Não ignorando os problemas dessa atividade, mas, ainda assim, questionando as soluções tidas como certas pela sociedade, a reconfiguração do opressor a partir da criação das cooperativas. Encontrar-se-á, então, o conflito do discurso de três pólos: o catador de lixo que não participa de uma cooperativa, o catador cooperativado e o organizador dessa cooperativa. Como também se buscará alternativas para as cooperativas e exemplos de catadores que se organizaram sem um planejamento de alguém externo.
  Essa mesma perspectiva tem correspondência em outros grupos que não os catadores de lixo. Entende-se que na busca de uma resposta para o problema específico, será indagada a postura da sociedade “dos possuidores” como um todo, a formulação de suas crenças, de seus argumentos. 
  Analisar-se-á, também, se a sociedade considera essa atividade como marginalizada, ainda que no desenvolvimento da pesquisa não será essa afirmação relevante, tendo esse como outro possível tema habitual mencionado na justificativa, ainda que não deve ser completamente desconsiderada. Investigar o porquê de a sociedade querer sempre “incluir”, como se o “desgarramento” fosse impedir o seu desenvolvimento, tendo, então, esse comportamento como mecanismo de defesa, controle social, e, simultaneamente, o processo de “exclusão”, desmistificando esses conceitos.
  Talvez essa pesquisa seja vista como uma crítica às iniciativas que procuram soluções. Mas não seria essa a intenção, pois o objetivo é expor uma realidade a tais iniciativas para que tenham uma visão mais ampla de seu trabalho, tendo acesso a propostas que respeitem o indivíduo catador de lixo como um ser completo, e não como alguém a ser politizado. 
 
Metodologia:
Em um primeiro momento, tendo como objetivo discutir uma possibilidade para que os catadores se tornem sujeitos de suas atividades a partir do descortinar de sua identidade, haverá a comparação de organização informal tida pelos catadores em contrapartida com o conceito de quem organiza os mesmos. Para isso, é preciso definir o conceito de organização formal. O confronto maior será com o conceito marxista de organização das massas, buscando alternativas para essa construção formulada por quem não irá ser o sujeito da futura formação. Como também questionando o poder de alguém dizer o como deve ser feito, ignorando a cultura de quem sofre a ação.   Sendo essa uma discussão teórica, será analisada a partir de livros como Teoria das Organizações – Evolução e crítica, de Fernando Prestes Motta e A Nova Ciência das Organizações, de Alberto Guerreiro,  
  A partir de tais premissas, a discussão poderá tomar uma posição que tenda à precisão quanto ao contexto: se são marginalizados e excluídos ou não, como se estabelece a relação dos catadores com as instituições, com o sistema de um modo geral. Dessa forma, julga-se que será possível uma nova contextualização do problema em sua totalidade.
  Para o confronto, se buscará a identidade do catador de lixo não vinculado a uma cooperativa. Após uma analise do contexto em que o catador está inserido, será questionado o como tratar os catadores. Algumas considerações já podem ser feitas: há várias críticas às pesquisas, nas quais, a pobreza é estigmatizada, revelando, assim, uma postura que não condiz com o espírito científico. Mas ao contrário, constata deste modo, um preconceito voltado a esses indivíduos, por parte da própria pesquisa. Entretanto, levando em consideração o valor que o lixo e os catadores de lixo, por conseqüência, têm para a sociedade, compreende-se que os catadores são estigmatizados. Para averiguar quais valores são esses, serão realizadas entrevistas quantitativas com indivíduos diversos da sociedade envolvente, não sendo essas vozes de relevância para a pesquisa em questão.
  Com relação ao catador não vinculado à cooperativa, o primeiro contato será por meio de conversas informais, para haver, após a afirmação do contato, a gravação das conversas. Mesmo que a tendência seja formular questões prontas para essas conversas, não será essa a intenção, tendo em visão a fuga de perguntas indutivas. Há a preocupação com tais definições tendo essa como a voz de apoio principal da problemática. Com algum conhecimento do cotidiano dos catadores, pretende-se estabelecer a ida a campo, tanto na atividade com o lixo, como em suas moradias. Esse procedimento busca “descrever quem eles pensam que são, o que pensam que estão fazendo, e com que finalidade pensam que estão fazendo” (4, ). O pesquisador se configurará como para Geertz, ainda que em campo, tendo um mundo próprio. Ele aprende a viver com o objeto, mas não se torna o objeto (idem, passim).  Essa metodologia tem por objetivo a interpretação do pesquisador tendendo a independência da opinião do objeto, como se configura baseando-se somente em entrevistas. Além do traçar da identidade, será questionado a esse catador o porquê dele não ter se vinculado a uma cooperativa e quais são as possibilidades para sua realidade.
  Tendo esse como o desvendar do primeiro dos três citados discursos que se encontrarão no procedimento da pesquisa. O segundo é o do organizador de uma cooperativa. Para esse, será aplicado questionários que explicam idéias de seu ponto de vista sobre o assunto, como essa voz explica a sua própria lógica. Isso, para verificar se a argumentação pressuposta do “possuidor – não possuidor” está em seu discurso, tornando nítida a metodologia para com os catadores, tanto no processo de convencimento desses (se é que existe), como sua atuação no cotidiano da cooperativa. Não há a intenção de um questionamento direto sobre o aprofundamento da problemática contido na pesquisa, mas de elucidar o posicionamento por parte dos organizadores para com as outras duas vozes demonstradas. Para a análise desse ponto de vista do problema, buscar-se-á também trabalhos acadêmicos e teóricos que defendam a cooperativa como um meio.
   Na terceira voz encontram-se os catadores de lixo vinculados à cooperativa. Haverá, também, uma ida a campo, menos intensa que a pretendida referente aos não vinculados. Ainda assim, se buscará uma “identidade dos cooperativados” levantando a questão se esses criam uma nova forma de vida, visto que, como defende Kênia Kemp, “a cultura é pautada pelo movimento” (7, 65). Considerando que os interesses desses catadores, em específico, são diferentes, havendo neles uma outra carga de informações, qual é a mudança de valores que ocorre com a vinculação à cooperativa, se a intenção dos organizadores de educar-lhes é verificada e se é correspondida. Para isso, assim como na primeira voz, busca-se o mundo pessoal tanto como as relações profissionais. Também serão realizadas conversas informais gravadas.   
  Para o confronto das vozes, será considerada a análise de discurso, investigando possíveis relações de poder. Será evidenciado o que se acredita estar realizando pelo sujeito de cada voz em relação a real repercussão do discurso. Como também será levantada a questão da origem dos discursos, considerando, por exemplo, a apropriação de termos dos organizadores por parte dos “organizados”.  
  Ao compor as três vozes encontradas na problemática, entende-se que será indagada a organização em cooperativas como solução para os catadores de lixo, considerando a forma como é construída e os motivos que lavam a essa organização. Considerar-se-á a defesa de uma identidade dos catadores, propondo a discussão dos sujeitos de cada ação. 
  
Tabela de atividades:

CRONOGRAMA DE EXECUÇÃO (Atividades a serem desenvolvidas no período de 12 meses)

 

Meses

Atividades

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

Pesquisa Bibliográfica

X

X

X

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leituras

X

X

X

X

X

X

X

X

 

 

 

 

Coleta de dados

 

 

X

X

X

X

X

X

X

 

 

 

Seleção e Decodificação

 

 

 

 

X

X

X

X

X

X

 

 

Análise dos Dados

 

 

 

X

X

X

X

X

X

X

X

 

Redação de textos para  apresentação em eventos

 

 

 

 

 

 

X

X

X

X

X

 

Revisão de Texto

 

 

 

 

 

 

 

 

X

X

X

X

Relatório Final

 

 

 

 

 

 

 

 

 

X

X

X

 

Plano de Atividades:
Pesquisa Bibliográfica: Levantamento das obras já escritas referentes ao assunto. Será realizada no início do projeto, tendo como finalidade a orientação da pesquisa.
Leituras: Tendo por base a bibliografia levantada, haverá o processo de leituras, que será realizado durante quase todo o tempo do trabalho, considerando também as obras já citadas. O objetivo dessas leituras é o fundamento dos argumentos da pesquisa.
Coleta de Dados: A partir da análise das obras, poderá ir a campo, tendo as vozes 1 e 3. Dentro da coleta de dados, tem-se em vista também as entrevistas, conversas informais e conversas gravadas das 3 vozes (tendo especificado na metodologia onde será aplicado cada recurso). E ainda o questionário a ser aplicado com a sociedade envolvente.  
Seleção e decodificação: à medida que serão coletados, eles serão selecionados, para que assim haja uma orientação, tendo em vista a análise final. Nessa atividade também serão decodificadas as gravações.
Análise de dados: Os dados coletados, as obras pesquisadas, todas as informações colhidas serão analisadas, encaminhando a organização da idéia para a conclusão da pesquisa.
Redação: tendo já algum material e as primeiras análises realizadas, o trabalho poderá ser apresentado em eventos destinados à discussão de assuntos relacionados.  Tal atividade é importante tanto para a repercussão da pesquisa como para a proposição real do conflito de argumentos, revigorando, assim, a constituição dos argumentos da pesquisa.
Revisão de texto: concluindo a argumentação se iniciará a construção do texto.
Relatório Final: com o objetivo de explanar toda a pesquisa realizada, será constituído tal relatório.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Bibliografia:
1.  BALANDIER, Georges.  Antropologia Política.  São Paulo:  Difusão Européia do Livro/EDUSP,  1969.
2.  CESCONETO, Eugênia Aparecida.  Catadores de Lixo: Uma Experiência da Modernidade no Oeste Paranaense (Toledo, 1980-1999).  Toledo.  Fonte internet,  2004.
3.  CERTEAU, Michel de.  A Invenção do Cotidiano:  artes de fazer.  tradução de Ephraim Ferreira Alves;  Petrópolis:  Vozes,  1994.
4.  GEERTZ, Clifford. Nova Luz sobre a AntropologiaRio de Janeiro:  Jorge Zahar Editores,  2001. 
5.  FOUCAULT, Michel.  A Verdade e as Formas Jurídicas.   Rio de Janeiro: NAU Editora,  1996.
2005
6.  GOFFMAN, Erving.  Estigma:  Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada.   Rio de Janeiro:  Zahar Editores,  1978.
7.  KEMP, Kênia.  Identidade Cultural.   In:  Antropos e Psique – O outro e sua subjetividade.  Organizador: Silas Guerreiro.  São Paulo:  Editora Olho d’Água, 2000.
8.  PERMAN, Janice.  O Mito da Marginalidade.  Rio de Janeiro:  Paz e Terra, 1977.
9.  Sahlins, Marshall.  Cultura e Razão Prática.  Rio de Janeiro:  Zahar Editores,  1979.

10.  Silva, Rosiany Maria da. A História Contada Por um Catador de ‘Lixo’: Jesus Aparecido Montelo.  Maringá:  UEM,  2004.

11.  ZALUAR, Alba.  A Máquina e a Revolta.   São Paulo:  Brasiliense,  1985.

 

Filmes:
12.  Formação de Cooperativa de Catadores – Biociência: Recursos Sólidos Produção: PH – Philippe Henry Multivisão e Vídeo, 2002
13.  Ilha das Flores 
Documentário de Jorge Furtado. Brasil, 1989